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O SAGRADO: EXCLUSIVO OU UNIVERSAL?

TÍTULO: O SAGRADO: EXCLUSIVO OU UNIVERSAL? UMA LEITURA A PARTIR DO PENSAMENTO TEOLÓGICO/FILOSÓFICO DE PAUL TILLICH

AUTOR: Antônio Almeida Rodrigues da Silva

Link: https://www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/COR/article/view/2406 

O artigo “O Sagrado: Exclusivo ou Universal? Uma leitura a partir do pensamento teológico/filosófico de Paul Tillich”, se propõe a analisar as relações entre a cultura, a religião e secular, a partir de paralelos com o pensamento de Paul Tillich, conhecido teólogo e um dos pensadores mais influentes do século XX. 

Partindo da ideia de que parte do Cristianismo evita (ou se nega a) se relacionar com a cultura, haja visto que, no pensamento destes, a cultura dita secular é maléfica para a vida religiosa, e tomando como base o pensamento de Tillich, que tem nas relações entre a religião e a cultura um de seus grandes eixos de pensamento, o autor visa demonstrar que é impossível ao homem fazer religião sem a cultura, assim como a cultura está muito ligada ao divino, sendo este seu o divino o propósito final também da cultura, mesmo que de forma inconsciente.

A ideia de Silva é que “na profundidade da cultura está a religião, pois o fundamento do sentido tem que ser religioso. A partir de fundamentações como a proposta acima, o autor caminha pela proposição de que não há, de fato, separação entre a cultura e a religião. Uma está inserida na outra, uma participa da outra. 

Para tanto, Silva se apoia nas ideias de Tillich, que sustenta a tese de que as categorias seculares e religiosas podem coexistir sem maiores dificuldades. 

Silva apresenta, em contraposição, ou ainda como uma opção aos conceitos de Autonomia e heteronomia, conhecidos campos, a Teonomia, que “afirma que a lei superior é, ao mesmo tempo, a lei inerente ao ser humano que é o que vai aprofundar o sentido da autonomia da cultura”, trabalhando com o sentido de transcendência. 

Apresentando boas sustentações argumentativas, Silva constrói um bom argumento sobre as relações entre a religião, a cultura e o sagrado, com o posicionamento evidente de Tillich de que o dualismo, tão difundido na cristandade, não tem um sentido lógico no que tange a estas relações, porque um conceito está inserido dentro do outro. 

Ao mesmo tempo, estabelece limites entre a religião e a cultura, sendo que, à primeira, fica a impossibilidade de renunciar ao absoluto, e à segunda, a impossibilidade de evitar a verdade e a justiça. 

O artigo é bastante preciso ao evidenciar um tema que traz bastantes polêmicas nas comunidades cristãs. Trabalhar a cultura dentro das Igrejas torna-se difícil a partir do momento em que herdamos conceitos que secularizam toda e qualquer cultura que não esteja inserida dentro dos portais eclesiásticos e, portanto, sacros. 

Um dualismo surgido há séculos, ainda antes de Cristo, muito difundido pelo pensamento gnóstico e que ainda influencia o pensamento contemporâneo. 

Há profundidade argumentativa e fica evidente que, tanto Silva quando seu referencial, Tillich, buscam encontrar um caminho que derrube este dualismo, pois a cultura e a religião não são opositoras, e ambas carregam reflexos umas das outras. 

Uma grande verdade no seio da igreja é que a “teologia do medo” imposta pela Igreja na cultura ocidental, como diz o texto, acabou privando até mesmo a liberdade de pensamento de seus fiéis. Partindo de uma reflexão mais aprofundada, e até mesmo da apreciação do mundo que nos rodeia e das manifestações culturais diversas, é possível perceber uma relação inegável entre estas e o divino. Mesmo que esta percepção parta do cristão, considerando que, tantas vezes, quem expressa sua cultura, faz tendo como preocupação final o divino, mas de forma quase inconsciente.  

As diversas culturas, sejam estas as manifestações específicas de uma sociedade, de um povo, sejam elas nos aspectos cotidianos, ou ainda nas tão criticadas e diversas artes, estão totalmente inseridas na vida humana. Negar a cultura como parte da vida é negar a própria criação divina, em análise final. 

O dualismo como ferramenta de controle de fiéis acabou se tornando praticamente uma doutrina no meio eclesiástico e, neste contexto, a cultura acabou sendo demonizada, descaracterizada como parte da criação divina. 

O texto impõe certos limites à relação entre religião e cultura, e é evidente que há que se refletir acerca de certas manifestações culturais, assim como as religiosas. 

Todavia, e como o próprio texto argumenta, “é impossível a existência do sagrado sem o secular”. O que pode ser analisado a partir do pensamento de que esta dicotomia foi criada para resolver uma questão que ela mesma criou, o que também a torna um paradoxo, deixando explícito que não haveria a necessidade de uma divisão. 

Ao mesmo tempo, é impossível negar a santidade de Deus, negar as histórias contadas nas Escrituras que ressaltam questões sacras ao longo do tempo. 

Enfim, o texto é importante reflexão sobre os caminhos da Igreja. Ao negar a cultura, a Igreja, muitas vezes, está “defendendo” a ideia de que nem todas as coisas são parte da criação de Deus. Ao mesmo tempo, se apropria daquilo que critica, justificando a apropriação com terminologias que visam sustentar uma santificação falaciosa. Termos como “cristã”, “gospel” ou “evangélica” são inseridos junto às manifestações culturais com vistas a justificar o uso daquilo que a Igreja condena. 

Silva, a partir de suas próprias ideias e das de Tillich, compreende que a própria religião deve ser interpretada a partir dos contextos das culturas. E que o próprio divino, Deus, se manifesta a partir das culturas. 

É necessária a compreensão de que o homem está inserido em culturas diversas. E que é neste contexto cultural que a vida acontece. Mesmo as manifestações transcendentes, mesmo o místico, o espiritual vai ser expressado a partir dos diversos códigos entendidos por cultura. 

Deus, o divino, ou o incondicionado, como o texto expressa, está acima da religião. Muito além de qualquer tentativa de aprisionamento ou exclusividade. 

Este divino se manifesta em qualquer contexto, cultural ou religioso. E mesmo com aparentes ressalvar a serem feitas, tanto cultural quando religiosamente, a este argumento, o texto e as argumentações, no mínimo, levantam algumas problematizações que podem, e devem ser levadas às comunidades cristãs, em busca de reflexão, discussão e caminhos para a compreensão, tanto do divino quando da religião e da cultura. 

E este já é um grande passo para a quebra de paradigmas que acabaram se enraizando e tornando-se doutrinas que, em análise final, são, no mínimo, duvidosas.

rodrigocmagalhaes

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