TÍTULO: RELIGIÃO E CULTURA: AS NOVAS FORMAS DE VIVER A RELIGIOSIDADE ENTRE AS JUVENTUDES
Autoras: Elizabet Terezinha Castman Nogoseke, Osnilda Maria de Souza
Link: http://revistas.ufpr.br/relegens/article/view/35570
O artigo de Nogoseke e Souza fala sobre religiosidade e cultura. Traz uma reflexão sobre os caminhos das juventudes neste contexto. Para tanto, utiliza como referencial o trabalho de Peter Berger.
O texto em si traz a ideia de que o mundo contemporâneo se tornou, por consequência do mercado e da tecnologia, resistente ao modelo tradicional das religiões e, consequentemente, de suas interações, influências e caminhos na cultura.
Tendo a religião como protagonista no desenvolvimento de sociedades e, por conseguinte, das culturas, o que motivou desenvolvimento de povos e à construção do humano como ser pensante, atuante e influente onde se insere, as autoras abordam caminhos que levaram à perda deste protagonismo, fazendo uma análise da cultura, das religiões, uma pequena gênese de ambas e também do homem, e tenta responder às perguntas sobre a relação da religião com a cultura e seu papel neste novo mundo.
A tese das autoras é a de que a cultura é uma condição fundamental do homem, o que torna a natureza humana algo real. Neste sentido, cria-se um paradoxo onde o homem, ser inacabado e sempre em construção (e desconstrução), é capaz de criar algo, a partir de si mesmo, o que Berger chamaria de “mundo humano”. E é este mundo, compreendido na totalidade da construção criativa do homem que chamamos de cultura. A sociedade é criação do homem, mas a sociedade também vai influenciar o homem na sua construção como sujeito.
Ao mesmo tempo, em um caminho que cria quase uma contradição, a cultura, considerada também uma vivência espiritual, cria novas interpretações da vida e, no afastamento da ideia central de religiosidade, acaba criando um pluralismo religioso, pois a fé passa a ser compreendida no âmbito pessoal, algo privado e que cria uma ideia de libertação.
Como a cultura é, ou deve ser, em si mesma, uma verdade, uma realidade, ela cria em si mesma esta condição. Ao mesmo tempo, ela não está fixada, se desenvolve em tempo real e isto implica em todos os aspectos de nossas vidas, da língua ao modo de falar, da sexualidade às ideias de família. O homem é instável, portanto a cultura também se torna constantemente moldável.
A cultura, então, age ou produz influência tanto nos aspectos materiais como onde o homem está inserido e, ainda, na espiritualidade e, nisto, Deus.
O homem que vai sendo inserindo no mundo não tem a ideia de cultura inata, sendo “iniciado” neste meio a partir da sociedade, com a ideia de que a cultura é uma construção social e, para construir o seu mundo, o homem deve compreender o mundo como um todo. Um processo que dura a vida inteira.
A religião, como grande protagonista na legitimação das culturas, perde relevância, mas a compreensão de que a cultura e o sagrado trabalham em conjunto, de que se fundem está presente no texto, trabalhando com a ideia de que a cultura é reflexo da manifestação divina no mundo e isto está além, acima da religiosidade.
O texto aborda diversas questões sobre a cultura, a religiosidade e a liberdade, cada vez mais reais no meio da juventude. O pensamento de que a institucionalização da religião é algo negativo e a busca pela libertação destes caminhos trazem uma juventude que visa experimentar na prática da vida uma espiritualidade real, prática, vivida e não ritual. Uma espiritualidade que pode ser sentida, experimentada e praticada na sociedade a partir das manifestações culturais, consideradas, então, parte do divino.
Esta ideia altera drasticamente a relação que vivemos com Igreja e, principalmente, com o conservadorismo institucional, que ainda resiste em permanecer com os mesmos ideais, muitos deles datados de séculos. Por mais que tenham sido nortes de gerações, estas ideias já não são suficientes para a forma de pensar do mundo contemporâneo.
Como parte do Trabalho que almejo produzir, tenho também a ideia de que o mundo e, principalmente, a juventude, que tem a mente um pouco mais sensível e aberta às novidades que surgem, podem resgatar a ideia de uma cultura que não seja dualista, que revele o divino, que traga propostas inovadoras para resgatar uma cultura que se perdeu ao longo dos tempos, quebrando paradigmas de um conservadorismo que vem, dia após dia, se tornando maléfico para os caminhos do Reino.
A compreensão de um contexto contemporâneo enquanto sociedade, a cultura como manifestação humana e reflexo do divino e o desenvolvimento de uma teologia saudável, criativa, cultural e redentora, no sentido de resgate ao Evangelho pleno, mas contextualizado são, visivelmente, utopias que, ironicamente, estão ao alcance das mãos de uma juventude contemporânea diversificada, mas com poder de reflexão e práticas de vida que reflitam o Reino de Deus.
Resgatar uma cultura que reflita o divino é, em análise final, resgatar também uma religiosidade sadia, articulada, contextualizada e liberta das amarras de um conservadorismo negativo. Uma busca por equilíbrio, sempre necessário.
