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“A Formação do Novo Testamento”, de Oscar Cullmann

O Capítulo primeiro do Livro a Formação do Novo Testamento trata dos três primeiros Evangelhos. Também conhecidos como Sinóticos pela sua estrutura e semelhança, os textos levantam muitas informações e também muitas dúvidas a respeito daquilo que apresentam, tanto pelas próprias semelhanças como pelas divergências que acabam surgindo entre os mesmos. 

Cullmann inicia o capítulo relembrando o significado de Evangelho, que sofreu algumas mutações, desde a recompensa que era dada ao mensageiro, passando pelas ofertas aos deuses, a mensagem em si, até chegar ao conceito dos cristãos primitivos, que era a anunciação de Cristo como salvador e ao Evangelho escrito, propriamente dito. 

Os evangelhos formam um gênero literário que não tem semelhança com outros gêneros. É biográfico e de testemunho sobre Jesus. 

São quatro os testemunhos elencados no cânon bíblico, mas são três os que guardam estas semelhanças, Mateus, Marcos e Lucas. Cullmann relembra as polêmicas sobre as necessidades de haver quatro relatos do mesmo ato e as tentativas de sintetizar os mesmos em um único texto, todas rejeitadas e deixadas de lado em prol das visões “segundo” os autores canônicos. 

A unidade dos três sinóticos é um dos temas centrais do texto e Cullmann afirma que as semelhanças se dão, em muito, por os escritos serem sobre a mesma matéria, mas com a perspectiva ou com o resultado daquilo que cada autor tinha em mãos quando da sua escrita. 

Nisto, ele apresenta as hipóteses possíveis para esta unidade, a saber:

A utilização recíproca, onde os três se utilizaram reciprocamente, deixando as diferenças para as modificações pessoais. Assim sendo, Mateus seria o primeiro, Marcos se utilizaria de Mateus e Lucas dos dois anteriores. 

O Evangelho primitivo, onde uma fonte em comum, aramaica, hoje perdida, servira aos três autores.

A hipótese dos fragmentos, onde haveria uma pré-história já escrita, com narrações de algumas cenas e cada um juntou os elementos conforme sua própria maneira. 

A tradição oral, que teria servido aos três, cabendo a estes apenas passar para os escritos aquilo que lhes chegara. 

A hipótese das duas fontes, onde Mateus e Lucas teriam se utilizado de Marcos, neste caso o mais antigo dos três, e do evangelho primitivo já inexistente. Neste sentido, levanta-se outra questão, sobre o conteúdo de Marcos, se seria o mesmo de hoje. 

O autor emenda as ideias com o fato de que os evangelhos, em síntese, são representantes da voz do povo na comunidade cristã primitiva e que os autores acabam por também usar desta tradição, cada qual escolhendo os elementos que vai trabalhar e traçando um plano com estes elementos para elaboração do texto. 

Em seguida, apresenta O Evangelho de Mateus, afirmando que o mesmo é o primeiro a ser colocado no Novo Testamento pela tentativa do mesmo de criar uma ponte entre o Antigo Testamento e o Evangelho. 

Mateus é sistemático e muito bem escrito. Trabalha com tópicos por assuntos e revela a opinião e atitudes de Jesus em relação à lei Judaica. 

Mostra que Jesus não veio para ir contra a lei, mas objetivando seu cumprimento e que não só a doutrina de Jesus, mas o próprio Jesus e os acontecimentos de sua vida são o cumprimento do Antigo Testamento. 

O autor de Mateus é um judeu convertido, está dentro de uma comunidade judaico-cristã, provavelmente improvável de ser descoberta com exatidão, quanto ao local. 

Pode ter sido escrito ao longo de muitos anos de vivências e apresentado por volta do ano 80. 

A tradição aponta Mateus, o publicano, como sendo o autor, mas isto ainda é uma simples hipótese. 

A mensagem de Mateus é o Reino de Deus, repetida diversas vezes e sob diversas flexões. Em Mateus vemos a ideia do reino futuro (ainda não) e do reino estabelecido com a vinda de Jesus (agora). 

Este reino e sua proclamação por Jesus mostram a ideia de construção de uma nova ética, individual e social, que manifeste o evangelho. 

O autor segue apresentando o Evangelho de Marcos e, neste levanta a polêmica sobre onde o texto de Marcos termina, pois em alguns manuscritos mais antigos, ele termina abruptamente no verso 8 do capítulo 16. E levanta a hipótese, hoje trabalhada, de que a sequência do verso 8 havia se perdido e depois voltou a ser encontrada. 

A tradição indica Marcos como autor e não há maiores objeções a isto. 

Marcos teria sido uma testemunha ocular de Jesus, era de origem judaica, se dirigia a cristãos de fora da Palestina, provavelmente em uma comunidade cristã romanizada. Provavelmente é datado por volta de 70.

Sua mensagem é o princípio da boa Nova de Jesus Cristo. 

Cullmann identifica a expressão “filho do homem” usada por Marcos, nas palavras do próprio Jesus, como curiosas e passíveis de pesquisa, por serem diferentes dos demais evangelhos e por irem em oposição ao “filho de Deus” mais usual. 

Sinaliza a ideia de Jesus de silenciar quem por ele era tocado, porque o mesmo não queria ser confundido ou interpretado erroneamente em sua missão. 

Cullmann finaliza o capítulo falando acerca do Evangelho de Lucas, o cronista. Um evangelho mais detalhado, fruto de investigação, informado por tradições orais e as já tratadas hipóteses. 

Não é nomeado o autor, mas a tradição aponta Lucas, companheiro de Paulo, como o autor deste Evangelho. 

Era um cuidadoso escritor, com linguagem pura, provavelmente um cristão gentílico. 

Foi escrito por volta de 80, também. 

Lucas tem como perspectiva a história da salvação e o senhorio de Cristo. Lucas pensa no reino mais como sendo futuro. 

Também destaca-se em Lucas a supressão de tradições mais judaicas, o que acaba por reforçar a ideia de um Evangelho mais universal. Além disso, é também considerado o Evangelho dos pobres, pela ênfase dos pobres como objeto das ações de Jesus. 

Por fim, Cullmann encerra pontuando a atmosfera de jubilo do Evangelho.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CULLMANN, Oscar. A Formação do Novo Testamento. São Leopold, RS: Editora Sinodal, 2001. p. 15-30

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