O Capítulo primeiro do Livro a Formação do Novo Testamento trata dos três primeiros Evangelhos. Também conhecidos como Sinóticos pela sua estrutura e semelhança, os textos levantam muitas informações e também muitas dúvidas a respeito daquilo que apresentam, tanto pelas próprias semelhanças como pelas divergências que acabam surgindo entre os mesmos.
Cullmann inicia o capítulo relembrando o significado de Evangelho, que sofreu algumas mutações, desde a recompensa que era dada ao mensageiro, passando pelas ofertas aos deuses, a mensagem em si, até chegar ao conceito dos cristãos primitivos, que era a anunciação de Cristo como salvador e ao Evangelho escrito, propriamente dito.
Os evangelhos formam um gênero literário que não tem semelhança com outros gêneros. É biográfico e de testemunho sobre Jesus.
São quatro os testemunhos elencados no cânon bíblico, mas são três os que guardam estas semelhanças, Mateus, Marcos e Lucas. Cullmann relembra as polêmicas sobre as necessidades de haver quatro relatos do mesmo ato e as tentativas de sintetizar os mesmos em um único texto, todas rejeitadas e deixadas de lado em prol das visões “segundo” os autores canônicos.
A unidade dos três sinóticos é um dos temas centrais do texto e Cullmann afirma que as semelhanças se dão, em muito, por os escritos serem sobre a mesma matéria, mas com a perspectiva ou com o resultado daquilo que cada autor tinha em mãos quando da sua escrita.
Nisto, ele apresenta as hipóteses possíveis para esta unidade, a saber:
A utilização recíproca, onde os três se utilizaram reciprocamente, deixando as diferenças para as modificações pessoais. Assim sendo, Mateus seria o primeiro, Marcos se utilizaria de Mateus e Lucas dos dois anteriores.
O Evangelho primitivo, onde uma fonte em comum, aramaica, hoje perdida, servira aos três autores.
A hipótese dos fragmentos, onde haveria uma pré-história já escrita, com narrações de algumas cenas e cada um juntou os elementos conforme sua própria maneira.
A tradição oral, que teria servido aos três, cabendo a estes apenas passar para os escritos aquilo que lhes chegara.
A hipótese das duas fontes, onde Mateus e Lucas teriam se utilizado de Marcos, neste caso o mais antigo dos três, e do evangelho primitivo já inexistente. Neste sentido, levanta-se outra questão, sobre o conteúdo de Marcos, se seria o mesmo de hoje.
O autor emenda as ideias com o fato de que os evangelhos, em síntese, são representantes da voz do povo na comunidade cristã primitiva e que os autores acabam por também usar desta tradição, cada qual escolhendo os elementos que vai trabalhar e traçando um plano com estes elementos para elaboração do texto.
Em seguida, apresenta O Evangelho de Mateus, afirmando que o mesmo é o primeiro a ser colocado no Novo Testamento pela tentativa do mesmo de criar uma ponte entre o Antigo Testamento e o Evangelho.
Mateus é sistemático e muito bem escrito. Trabalha com tópicos por assuntos e revela a opinião e atitudes de Jesus em relação à lei Judaica.
Mostra que Jesus não veio para ir contra a lei, mas objetivando seu cumprimento e que não só a doutrina de Jesus, mas o próprio Jesus e os acontecimentos de sua vida são o cumprimento do Antigo Testamento.
O autor de Mateus é um judeu convertido, está dentro de uma comunidade judaico-cristã, provavelmente improvável de ser descoberta com exatidão, quanto ao local.
Pode ter sido escrito ao longo de muitos anos de vivências e apresentado por volta do ano 80.
A tradição aponta Mateus, o publicano, como sendo o autor, mas isto ainda é uma simples hipótese.
A mensagem de Mateus é o Reino de Deus, repetida diversas vezes e sob diversas flexões. Em Mateus vemos a ideia do reino futuro (ainda não) e do reino estabelecido com a vinda de Jesus (agora).
Este reino e sua proclamação por Jesus mostram a ideia de construção de uma nova ética, individual e social, que manifeste o evangelho.
O autor segue apresentando o Evangelho de Marcos e, neste levanta a polêmica sobre onde o texto de Marcos termina, pois em alguns manuscritos mais antigos, ele termina abruptamente no verso 8 do capítulo 16. E levanta a hipótese, hoje trabalhada, de que a sequência do verso 8 havia se perdido e depois voltou a ser encontrada.
A tradição indica Marcos como autor e não há maiores objeções a isto.
Marcos teria sido uma testemunha ocular de Jesus, era de origem judaica, se dirigia a cristãos de fora da Palestina, provavelmente em uma comunidade cristã romanizada. Provavelmente é datado por volta de 70.
Sua mensagem é o princípio da boa Nova de Jesus Cristo.
Cullmann identifica a expressão “filho do homem” usada por Marcos, nas palavras do próprio Jesus, como curiosas e passíveis de pesquisa, por serem diferentes dos demais evangelhos e por irem em oposição ao “filho de Deus” mais usual.
Sinaliza a ideia de Jesus de silenciar quem por ele era tocado, porque o mesmo não queria ser confundido ou interpretado erroneamente em sua missão.
Cullmann finaliza o capítulo falando acerca do Evangelho de Lucas, o cronista. Um evangelho mais detalhado, fruto de investigação, informado por tradições orais e as já tratadas hipóteses.
Não é nomeado o autor, mas a tradição aponta Lucas, companheiro de Paulo, como o autor deste Evangelho.
Era um cuidadoso escritor, com linguagem pura, provavelmente um cristão gentílico.
Foi escrito por volta de 80, também.
Lucas tem como perspectiva a história da salvação e o senhorio de Cristo. Lucas pensa no reino mais como sendo futuro.
Também destaca-se em Lucas a supressão de tradições mais judaicas, o que acaba por reforçar a ideia de um Evangelho mais universal. Além disso, é também considerado o Evangelho dos pobres, pela ênfase dos pobres como objeto das ações de Jesus.
Por fim, Cullmann encerra pontuando a atmosfera de jubilo do Evangelho.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CULLMANN, Oscar. A Formação do Novo Testamento. São Leopold, RS: Editora Sinodal, 2001. p. 15-30
