Início » “Princípios da Educação Musical”, de Keith Swanwick

“Princípios da Educação Musical”, de Keith Swanwick

Swanwick se propõe a trabalhar a música como uma forma de discurso, e para isto usa, como exemplo, as metáforas. Tipifica três aspectos, interligados de trabalhar esta linguagem (discurso), até que se consiga exprimir a metáfora na música. O autor compreende que a música pode ser utilizada para diferentes propósitos, mas foca na educação musical como o caminho para o desenvolvimento deste ideal metafórico, capaz de nortear e expandir a mente. 

A crítica de Swanwick ao status que é dado ao ensino da música na sociedade é impiedosa e precisa. Relegado aos cantos, a música deixa de ter a importância que deveria, e o ensino musical parece ser, também, deixado em segundo plano pelos educadores. 

Swanwick demonstra, a partir de três princípios norteadores, seus ideais para a educação musical. Partindo da valorização da música como discurso, ele aponta, a partir de uma melodia própria e seu desenvolvimento, a evolução do discurso e como ele é sentido, como são ouvidos os sons, e como eles são expressados. Ao explicar as mudanças em seu discurso e contrapor com a música tradicional, o autor faz uma apologia ao modo intuitivo de se fazer música. 

É interessante perceber a idealização do autor porque ela vai contra as formulações musicais mais tradicionais, que tem forma e estrutura pré-determinadas. A partir do momento em que se faz uso de métodos intuitivos na construção da sonoridade, criam-se as metamorfoses, situações inesperadas, como o próprio autor cita, o que é natural em certos meios de ensino, principalmente quando a educação musical está focada no infantil. Crianças têm tendência a perceber sonoridades e, a partir destas, criar expressões, gestos. A partir daí, realmente a música passa a ter vida própria, e o próximo compasso pode ser uma grande surpresa.  Isto é realmente o tipo de ensino que o autor trabalha: ensinar música musicalmente. 

Swanwick segue com a ideia de considerar o discurso musical dos alunos. Baseado no texto e em experiências, é fácil observar que cada aluno chega ao ambiente de ensino com sua própria cultura musical, já há uma experiência. Então, a ideia de aproveitar isto ao invés de “engessar” o ensino e norteá-lo por teorias e convenções, deixando que o aluno participe ativamente, domine a música, é extremamente importante. A ênfase de que o ensino coletivo, em pequenos grupos é benéfico, compartilha experiências e amplia o leque de possibilidades de aprendizagem (imitação, por exemplo), se impõe diante de um dogma que é muito cultuado no meio musical: o de que o ensino/aprendizagem eficaz se dá somente na interação professor/aluno, metodologia tradicional e estudo. A prática em conjunto, por mais que desafie outras situações, expõe situações que ajudam tanto a respeitar o discurso individual do aluno quanto a dar a oportunidade de que o aluno interaja, respeite e aprenda a partir da perspectiva de um colega. 

Por fim, o terceiro ponto toca exatamente onde há muita polêmica: a fluência de leitura/escrita musical e seu posicionamento na aprendizagem com um meio para um fim, ficando, para o autor, atrás de ouvir e articular/executar a música. E, apesar de todo o peso e importância inegáveis que a leitura/escrita musical têm, não é música. Fazer música, tocando, cantando, é música, e a parte de linguagem escrita é um meio para que isto seja registrado. 

O autor finaliza o capítulo tratando de exemplos práticos e nisto se destacam, a partir dos exemplos, uma sistematização de parâmetros que podem, muito bem, reger um planejamento pedagógico e prático musical em aula. Seriam os pontos: Composição, Estudos de literatura, Apreciação musical, Aquisição de técnica e a performance. Tudo baseado em estudos feitos com grupo e, conforme o autor, com resultados musicais evidentes. Algo que é bem pouco aproveitado, em termos práticos, nos meios de ensino/estudo musical, do básico ao acadêmico, onde a segunda e, talvez, a quarta ideias são difundidas, mas as demais são deixadas de lado. Os outros exemplos do texto seguem no mesmo sentido, e sinalizam a importância do discurso musical, a elevação da ideia de um saber ouvir, uma boa fluência musical e a contraposição à rigidez de algumas metodologias de estudo, que engessam e tiram o espaço do discurso musical próprio do aluno, e trabalhando a música como parte do próprio desenvolvimento da vida do indivíduo. 

O que fica de mais interessante no texto do autor, que, apesar de ser muito truncado em sua forma de escrever ideias (uma ironia às próprias ideias do mesmo) e que dificulta bastante a fluidez e compreensão de seus pensamentos é a ideia de que a música como discurso é muito mais do que apenas o saber musical, é uma ideia de senso de vida, e a certeza de que a música extrapola, sempre, todos os limites que à ela podem ser impostos. Notas que se tornam melodias, expressões, gestos e metáforas, mas sem jamais estarem aprisionadas, gerando, em cada aluno, professor, ouvinte, um discurso próprio. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SWANWICK, Keith. Ensinando música musicalmente. São Paulo: Moderna, 2003. Cap. 3, p.56-79.

rodrigocmagalhaes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao topo