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MUDANDO O TOM EM SÉRIE

André Cavazotti é o autor deste artigo, publicado originalmente na revista Por Musi, de Belo Horizonte, Minas Gerais, no ano 2000. Nele, Cavazotti tece uma análise crítica sobre o trabalho de Arrigo Barnabé intitulado “Clara Crocodilo”. 

A partir da apresentação do trabalho e das relações deste com o serialismo e também com questões culturais, o autor aproveita para analisar um pouco da carreira de Barnabé, iniciando por uma pequena biografia do artista. 

É notável o trabalho de Barnabé. Considerado uma das grandes inovações pós-Tropicália, ele gerou comentários diversificados pelas inovações trazidas pela sua música. Ao aliar elementos da música erudita, do atonalismo às letras que traziam o cotidiano metropolitano e críticas sociais e levar isto para a música popular, Arrigo Barnabé chamou a atenção, fez sucesso e influenciou novos nomes da música. 

Barnabé achava que a música atonal era o único caminho pós Tropicália, conforme suas próprias palavras. E o serialismo foi o “tom” de todas as composições de Clara Crocodilo, com séries de seis, oito ou doze notas (dodecafônicas). 

É interessante perceber as influências literárias e filosóficas de Barnabé, e também o seu fascínio pelos quadrinhos. Quem gosta de quadrinhos e tem o costume de escutar a música e as letras de Arrigo Barnabé consegue contextualizar perfeitamente as ideias desta influência. 

O autor do artigo é um pouco maçante e repetitivo em seus argumentos, principalmente no que tange a insistência de relatar o conteúdo das letras de Barnabé, focada em uma crítica social paulistana na década de 70. O que é percebido nas letras, de fato, é que elas acabam por se tornarem praticamente atemporais, retratando uma crítica que, muito bem, pode ser transferida para os tempos posteriores às composições, e nisto podemos, também, incluir nossas metrópoles contemporâneas. 

Barnabé, entendendo o atonalismo como o único caminho a seguir, como já dissemos acima, usa-o para romper com a ideia da música tonal, confrontar a mesma e ver neste uma tentativa de, por que não, moldar os ouvidos de quem fosse apreciar a sua música. 

Apesar de reconhecer as dificuldades, a ideia de Barnabé de que, mesmo não gostando da música, o público pudesse a reconhecer como bela é interessante. Uma provocação a quem, desde sempre, acostumou o ouvido ao tonalismo. 

É evidente que a música de Barnabé, assim como toda a música que foge do tradicional sistema tonal, é bastante complicada de ser ouvida e, principalmente, compreendida. Causa estranheza aos ouvidos e, por mais que seja agradável de ser apreciada, a falta de compreensão, que parece, a todo o momento, levantar, ao melhor estilo dos quadrinhos influenciadores de Barnabé, um balão de nossas mentes com expressões do tipo “Mas o que é que está acontecendo?” tem uma grande capacidade de tornar este tipo de canção “não popular”. 

Mesmo um músico com o ouvido treinado a identificar sons, acordes, instrumentos, ideias musicais, fica aturdido com as mudanças “atípicas” ao ouvido não atonal. 

Ao mesmo tempo, este “caos” aparente parece ser justamente o que traz a harmonia perfeita com a ideia expressada nas letras das músicas. 

Parece-me evidente que a falta de sucesso nas rádios se dá pela falta de compreensão deste tipo de música. Todavia, a falta de compreensão da música se dá pela cultura adquirida pela massa que prioriza o conforto e a comodidade. Preferimos, tantas vezes, ouvir mais do mesmo e, mesmo mudando o intérprete, não ousamos buscar o diferente. 

Barnabé parece ter caído naquela vala comum onde a crítica o exaltou pela inovação, ousadia, qualidade musical e poética enquanto a grande massa rejeitou a sonoridade justamente pelos mesmos motivos. 

Um caminho que já foi percorrido por centenas de artistas. Talvez não com a mesma qualidade e não com a ousadia de fugir, rejeitar e contrapor o sistema tonal, como fez Barnabé. Mas que sempre traz o mesmo resultado, um paradoxo entre a crítica especializada e o público comum. 

Talvez um dia Arrigo Barnabé seja cultuado por este seu trabalho e por sua ousadia em, contrapondo o caminho normal e evidente – referenciar Caetano e o tropicalismo com “mais do mesmo” – tomar um rumo totalmente inovador, característico, único e complexo. 

É possível que muitos de nós não estejamos preparados, ainda hoje, 36 anos depois do lançamento da obra Clara Crocodilo, para compreender todas as complexidades impostas pelas canções de Barnabé. É possível que, quem sabe, devêssemos compreender mais a vida e os caminhos do artista, suas influências, seus referenciais, os conceitos dos quadrinhos para, de forma mais trabalhada, conseguir compreender a sonoridade que foi tirada destes. 

Mas, acima de tudo, é necessário quebrar o nosso conservadorismo musical, que nos impede de ir adiante. Em um mundo regido pelas mais diversificadas trilhas sonoras, nos limitamos a trabalhar sempre com os mesmos sons. Temos dificuldades inclusive de conseguirmos transitar entre o popular e o erudito. Imagine juntar os dois em uma sonoridade inovadora e complexa e exigir de ouvidos engessados que compreendam, aceitem e ainda gostem destas sonoridades. 

Quem sabe se conseguirmos dar chance às inovações, ao diferente, treinar nossos ouvidos às ideias diferentes, consigamos abrir espaço para que mais artistas, influenciados pelo grande Arrigo Barnabé consigam, enfim, levar o legado de seu mestre adiante. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CAVAZOTTI, André. O Serialismo e o Atonalismo aportam na MPB: As canções do LP Clara Crocodilo de Arrigo Barnabé. Por Musi. Belo Horizonte: 2000. P. 5 – 15.

rodrigocmagalhaes

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