TÍTULO: PAUL TILLICH E SUA TEOLOGIA DA CULTURA
AUTOR: Glauber Souza Araújo
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O artigo de Araújo se propõe a analisar a obra de Paul Tillich, intitulada “Teologia da Cultura”. A ideia do autor é apresentar as ideias básicas de Tillich sobre a relação entre a cultura e a espiritualidade, e o quanto elas estão interligadas e interferem diretamente no nosso modo de viver.
O autor relembra que a Obra em questão é de recente apresentação para o público brasileiro, sendo, anteriormente, muito citada. Agora, porém, com a disponibilidade da versão brasileira, a possibilidade de compreender aquele que é considerado o teólogo da cultura se torna muito maior. O objetivo de Tillich é quebrar a barreira entre a fé e a cultura, distanciadas pela religiosidade.
Tillich parte dos questionamentos mais comuns sobre a utilidade da religião, criando uma tensão entre o utilitarismo e a real expressão divina, passando a responder com a ideia de que a religião, por si só, sendo parte do espírito humano, e divina, está em todos os lugares, norteando as funções da vida humana e espiritual, fazendo parte de todos os aspectos que cercam o ser humano.
Nisto, ele já introduz os aspectos culturais que, em todo o tempo, ocupam a vida humana. A profundidade da vida humana e espiritual ele trata como “preocupação suprema”, sendo a religião o fundamento da vida espiritual do humano. E isto, conforme o próprio Tillich, se manifesta a partir de cada fragmento da existência humana, socialmente, criativamente, em todas as culturas, norteando os caminhos da vida.
O texto segue mostrando que a religião pode ser entendida, também, pelo viés de questões existenciais, e não apenas teóricas. E isto está diretamente ligado ao que o texto chama de “desaparecimento” da separação entre o sagrado e o secular, pois, se a preocupação com o supremo engloba tudo, torna-se incompatível criar ou fazer com que esta separação subsista.
Aplicando as ideias de Tillich, Araújo traz a ideia de que a religião se utiliza de símbolos e estes símbolos são expressões culturais que vão muito além de si mesmos. São profundas aberturas de realidade e da alma humana.
O texto se encaminha para o final ressaltando a arte e sua relação com a religião, indicando que não há estilo artístico específico para retratar o sagrado e que cada estilo acaba por ressaltar uma interpretação própria para o significado da vida, partindo do ser humano.
O mesmo acaba ocorrendo em outras áreas, como psicologia ou na psicanálise. Ela revela a profundidade do ser humano, expõe suas fraquezas enquanto que, no próprio ato de análise, acaba por justificar a sua existência como evidência da alienação humana da realidade. Ela expõe o pecado como a separação do ser essencial, diz o texto.
Araújo traz elementos ainda da educação, da filosofia, da ética, de todas as criações e manifestações práticas da cultura como fundamento para a sua ideia de que a cultura está presente em todos os aspectos da vida e caminha em total sintonia com a religião e a espiritualidade, em todas as camadas essenciais da vida, o que levanta o questionamento da relevância que haveria em uma separação entre fé e cultura.
A obra de Tillich é uma viagem pelo saber humano, relacionando as diversas áreas do conhecimento, da prática de vida e da espiritualidade a um vetor comum: a busca pelo supremo. E vai além, relacionando esta preocupação com o supremo e todas as faces da cultura. São fatores que se unem e que dão a liga que Araújo busca no texto de Tillich.
Tillich não foi o primeiro e nem o último a fazer estudos relacionando a fé, a espiritualidade e a religião com a cultura. É interessante perceber que, mesmo com obras grandiosas como a escolhida por Araújo, de Tillich, e tantas outras, como Schaeffer, Rookmaaker, Horton, González, até mesmo Stott, o cristão ainda traz consigo uma grande dificuldade de compreender a cultura e sua relação com a fé e a religião.
As próprias Escrituras estão completamente abastecidas de aspectos culturais que reforçam ou até são gatilhos para as mais diversas manifestações espirituais.
Mesmo assim, o tempo e uma religiosidade controladora, que se apega muito mais às coisas do que ao ser humano em si e à profundidade da vida e da alma humana, criaram uma barreira entre a religião e a cultura e, nesta barreira, moldaram um dualismo que, em sua essência, é falacioso.
Tillich se utiliza de diversos aspectos culturais como ponto de partida, demonstrando que a fé e a cultura se relacionam o tempo todo. Que este dualismo não faz sentido, a partir do momento em que a fé e a cultura caminham juntas em todo o tempo, sendo uma a manifestação da outra e a outra o caminho para a revelação de uma.
Seja na arte, tão criticada e uma das maiores motivadoras desta separação, seja nos aspectos sociais e sociológicos, seja nas diversas dimensões culturais que afetam nossas vidas diariamente, em tempo real, urge o tempo em que uma reflexão e um debate aprofundado sobre este tema sejam expostos em nossas comunidades cristãs.
Para que haja compreensão de que Deus é o Deus da fé, da espiritualidade e também da cultura, que Ele se manifesta a partir da cultura, que é a essência, em análise final, também da busca que as culturas fazem em suas manifestações.
