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CONTRACULTURA NO PROTESTANTISMO

TÍTULO: CONTRACULTURA NO PROTESTANTISMO: O ÁLBUM DE VENTO EM POPA (1977)

Autores: Gladir da Silva Cabral e Sérgio Paulo de Andrade Pereira

Link: http://editorarevistas.mackenzie.br/index.php/cr/article/view/5056/3845

O Artigo de Cabral e Pereira traz uma abordagem bastante interessante sobre a música como parte do fenômeno religioso e, tanto a música quanto o fenômeno religioso como cultivadores no mundo, ou seja, ambos como produtores de cultura. 

No álbum “De Vento em Popa”, do Grupo Vencedores por Cristo, os autores começam a trabalhar com a ideia de um movimento de contracultura dentro do protestantismo brasileiro e a capacidade que a música, como ferramenta cultural, tem de dialogar com a sociedade, partindo do gueto cristão. ”  

A tese dos autores é a de que o movimento de música cristã contemporânea tem suas raízes no Jesus Moviment, movimento seiscentista que bradava contra a institucionalização das igrejas, barreiras impostas à Juventude e suas formas de expressão, assim como uma resposta aos movimentos contra culturais diversos da mesma época, como os hippies. Dentro deste contexto, o Jesus Moviment e sua forma de se expressar e evangelizar, transformando mentalidades e vidas.  E são ideias como as deste movimento que chegam ao Brasil na década de 60, a partir de algumas Missões.

O país vivia um contexto de ditadura, influência estadunidense e violência. E os movimentos que começaram a se criar foram se caracterizando por buscar ser voz em meio a tantas dificuldades. Um dos caminhos foi a aproximação da forma musical e, através da utilização de meios de reprodução da cultura de massa do momento, a busca por contextualizar o evangelho e por se comunicar com a sociedade não cristã a partir da arte.

A cultura das artes sempre teve bastantes dificuldades no meio tradicional cristão protestante, sendo proibida, inclusive nos Estados Unidos, onde estes movimentos se originaram. Os problemas continuaram por aqui, haja visto que a mentalidade protestante brasileira ainda era (e é) herdeira do pensamento importado.

Por lá, muitas pequenas comunidades foram se formando, e a cultura foi sendo preservada dentro destas, em oposição à cultura vigente nos templos. Por aqui, o disco De Vento em Popa causou choque por introduzir, na Igreja, elementos que eram considerados da cultura “mundana” e, portanto, inaceitáveis dentro do Cristianismo.

A aproximação estética com a música da época, os estilos e referências causaram grandes polêmicas. MPB, samba, Bossa Nova eram uma afronta à hinódia tradicional. Violões, baterias, contrabaixos e guitarras feriam a sacralidade do piano e do órgão.

Apesar de, conforme o texto, as letras das músicas se apresentarem-se teologicamente tradicionais, em contraste com os estilos, instrumentação e apropriações culturais, é possível perceber a diferença de criatividade e profundidade nas mesmas, o que também pode ser considerada uma evolução captada da cultura musical brasileira vigente na época.

A contracultura como contestação à cultura vigente é uma realidade. O texto coloca que o disco não age como contracultura na sociedade, mas, sim, dentro do próprio contexto evangélico. E isto acontece justamente pela mentalidade dualista, herança quase eterna, que trabalha sempre no sentido de afastamento total da cultura da sociedade em prol de uma santidade absoluta que só o templo e as doutrinas trazem.

Dentro desta ideia, é possível perceber que a cultura, como um todo, deve ser melhor compreendida dentro do Cristianismo. Que a Cultura pode ser também boa ou ruim. O apego às normas impostas como sacras para as artes dentro das igrejas parece criar um reducionismo, trazendo à tona um “conhecimento” de que cultura é igual à arte e isto deve ser totalmente rejeitado se não tiver origem em Deus.

Nisto, retira-se de Deus a ideia do Deus criador, inclusive das artes e da cultura como um todo, no sentido de cultivo, criação, criatividade, seja nas artes, nas ciências, na tecnologia, enfim, nos cultivos gerais.

No trabalho que preparo, tenho a pretensão de demonstrar, a partir de exemplos como estes, que a cultura de um povo pode sim ser utilizada pelo cristão, que também é parte deste povo. Mais do que isto, toda a cultura pode ser redimida.

A rejeição à cultura pela Igreja ainda é bastante relevante em nosso tempo, seja na música, nas artes em geral, como nas ciências, na tecnologia e nos demais aspectos, principalmente no que tange às formas culturais das diversas nações.

Exemplos como os que são abstraídos deste avanço causado pela ousadia do álbum do VPC, nos fazem refletir sobre a grandiosidade da criação de Deus, sobre a sua criação (crendo ou não neste Deus) ainda expressar o divino em muito e sobre a caminhada que ainda temos que trilhar até que haja compreensão de que a cultura, ou as culturas são, em análise final compatíveis com o Cristianismo. 

Não é, como costumeiramente é dito, “trazer o mundo para a igreja” e sim abrir as portas para dialogar, usar ferramentas certas, contextos corretos, aproveitar o que há de bom para refletir Cristo na Sociedade. A contracultura, utilizando-se de elementos culturais, mudou mentes e vidas. Cristo faz o mesmo. Nós podemos unir ideias e avançar em ideais a partir disto. 

Ainda há muita reflexão a ser feita e este é o objetivo do meu trabalho.

rodrigocmagalhaes

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