Um gênio. Um incompreendido. Triste. Sarcástico. Depressivo. Músico espetacular. Auto sabotador. Desconfiado. Sincero.
Mozart era tudo isto e ainda mais. O texto “Mozart: A Sociologia de um gênio”, de Norbert Elias, traz estas informações com muito cuidado e, ao mesmo tempo, jogando nos olhos (e na mente) do leitor uma série de novidades não exatamente boas sobre a vida do músico austríaco.
O termo “boas” pode ser um eufemismo diante do quadro pintado pelo autor, que traz exatamente o homem por trás do gênio, desnuda uma vida cheia de paradoxos praticamente intransponíveis, que levou toda a genialidade de Mozart até o limite, e deste para baixo, até a entrega total dos pontos, em uma morte fria, solitária, discutível e extremamente rápida.
Mozart reflete muito da ideia da carreira artística em diversos tempos. Carreiras que são trilhadas por diversos tipos de artistas, dos medíocres aos gênios como Mozart, mas que, em seu íntimo, vivem dilemas dos mais diversos níveis. Lutam contra si mesmos, tentam sobreviver a si mesmos em uma luta constante.
O jovem músico austríaco viveu um tempo de aflorada divisão de classes, e em meio a isso vivia o paradoxo do ser e não ser, ou do ser e não pertencer. Por sua grandiosa genialidade, fez parte das mais altas classes, participou de mesas nobres, tocou para aqueles que eram imensamente superiores a ele. E, ao mesmo tempo, este reconhecimento era acompanhado da certeza de que não fazia parte daquilo, o que parecia ser tarefa evidente da própria nobreza, a partir das mais diversas humilhações.
Deixando de lado o gênio e tratando do ser humano artista, o texto retrata com precisão muito do que a classe sofre. E, mais do que isto, como dito acima, pinta um retrato fidedigno do que se passa no interior de muitos artistas. A busca incessante pelo reconhecimento, a liberdade, a autonomia, enfim, a fama, contrastando diretamente com a realidade dura de quem necessita se subordinar para ter, ao menos, certa dignidade e independência financeira.
Mesmo sendo preparado desde cedo por seu pai, que certamente reconhecia o talento ímpar no filho, pois ele mesmo, Leopold, era músico, Wolfang ultrapassou aquilo que lhe foi doutrina durante parte da vida. Em uma época em que, talvez, a sociedade ainda não soubesse lidar com gênios, o jovem Mozart foi mais um gênio incompreendido, com uma musicalidade avassaladora, mas com uma avalanche de problemas.
A luta pela liberdade, os dramas familiares e amorosos, a desconfiança que norteava sua vida e a conduta depressiva, que o fazia oscilar entre o “palhaço” e o ultra realista sincero, em um mundo que nunca soube lidar com sinceridade, pareciam afastar Mozart do mundo.
Assim como ele, aqueles que desenvolvem o talento artístico parecem estar fadados a viver o mesmo ciclo, dia após dia, ano após ano, vidas após vidas. São dezenas, centenas de milhares de histórias que, se não se assemelham pela genialidade, se identificam pelo aspecto humano da vida do austríaco.
Talvez seja a busca pela fama. Talvez seja a má concepção do que é o reconhecimento. Ou a maneira não tão correta de lidar com o mesmo. Talvez a classe artística esteja destinada a uma vida de tristeza interna contrastada com a beleza e alegria de suas representações.
Como bem diz o texto, se referindo a Mozart, mas parecendo apontar o dedo para todos os demais artistas, “a fama em vida significava tudo”. Mozart, assim como muitos, parecia buscar na sociedade o reconhecimento artístico, mas ao mesmo tempo, o afeto que sempre sentiu não ter, de lado algum. A ideia de que ninguém o amava, que o assombrou desde pequeno, serve também como combustível para uma busca incansável por um reconhecimento que veio, mas que foi efêmero, o que elevou ainda mais o sentimento de fracasso.
Um amor regado à desconfiança, com alguém que parecia amar muito mais o gênio do que o homem. Uma pretensa libertação, uma autonomia que trouxe um punhado de felicidade, mais uma vez passageira, e ainda mais dolorida, pois trouxe consigo a necessidade de humilhar-se novamente ao voltar às origens. Realmente, Mozart reflete quase uma realidade inata aos artistas e aos gênios.
Um gênio que se reconhecia como tal. Que sabia ser superior aos demais. Que sabia o quanto poderia contribuir para o mundo em que vivia. E que, por isto mesmo, se frustrava ao ver que nada daquilo que sempre imaginou aconteceria, de fato.
E, somando a isto, como já dito no texto, sua incapacidade de lidar com a falta de sinceridade, a partir dele próprio, se tornava impossível esconder quem ele era, de fato, mesmo diante de suas interpretações, fossem elas artístico/musicais ou suas evidentes interpretações de si mesmo.
O texto traz grandes lições, a partir de um viés que é renegado por grande parte da sociedade, seja esta a contemporânea ou qualquer outra: o homem por trás da figura emblemática, da lenda, do gênio, do artista. Grande parte da sociedade não consegue conceber a ideia de que o mesmo ser que é capaz de emocionar multidões, de fazer aflorar os mais diversos sentimentos, de transformar a partir de sua arte, seja o mesmo que, em sua vida privada, carregue medos, tristezas, anseios, problemas dos mais diversos.
Assim como a vida de auto sabotagem (intencional ou não) de Mozart, outros tantos artistas passaram por nossa sociedade, e outros tantos aí estão, iluminando vidas enquanto tentam encontrar luz para si próprios, ganhando reconhecimento, ainda que muitas vezes tardio, enquanto a fama corrói, escondendo a tristeza em melodias avassaladoras.
Elias soube transportar muito bem a ideia do que foi a vida do homem por trás do gênio, a tal ponto que, ao final do texto, não restam dúvidas quanto aos motivos que levaram o gênio Wolfang a uma morte súbita.
Aliás, não restam dúvidas de que, se pudéssemos alterar ou discordar de algo descrito por Elias, morte súbita seria o conceito a ser rebatido. Porque Mozart começou a sua derrocada muito tempo antes de vir a, de fato, desistir de viver.
Um gênio. Um paradoxo. Um ser humano em busca de si mesmo, de amor e reconhecimento. Nada mais humano para alguém que foi genial.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
ELIAS, Norbert. Mozart: a Sociologia de um Gênio. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed. 1995.
