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OS DOIS JOÃO (texto de 2015)

O texto de Celso Loureiro é uma análise, quase uma síntese sobre a obra de
dois grandes mestres da música, cada qual em seu tempo, cada um com suas
peculiaridades, costumes, inovações, mas ambos absolutamente geniais em tudo o
que fizeram, ou ainda fazem, seja através das leituras da obra de Bach, seja
pelas performances únicas do lendário, e ainda vivo, João Gilberto.


É importante questionar a questão da temporalidade da música. Ao mesmo
tempo em que as estruturas musicais, os apelos culturais, a tecnologia e as inovações
dos musicistas, compositores e intérpretes, ao longo do tempo, vão trazendo a ideia
de superação do antigo, de uma caminhada sempre em direção ao futuro, tratar a
música como apenas parte de seu tempo é ignorar conceitos já estabelecidos,
descartar obras de arte por, teoricamente, serem datadas e desrespeitar quem
pavimentou um longo caminho.


É assim em todas as artes, mas a música parece acentuar isto. Mesmo em seu
tempo, e mesmo vendo outros, inclusive os filhos, como descreveu Loureiro, inovarem
e renovarem a música, Bach se manteve fiel ao seu estilo, às suas convenções, à sua
maneira de fazer música. Como o texto bem fala, ele parece demonstrar que, se
quisesse, poderia mudar e continuar sendo genial em qualquer estilo de fazer música,
mas parece ter preferido manter-se como gênio à sua maneira.


E Bach foi absolutamente inovador, é importante ressaltar. Mesmo que o texto
lembre disto, uma leitura desavisada pode chegar à esta lembrança já com o conceito
formado de que Bach fora um músico superado, já em seu tempo. Mas ele foi
inovador, moldou um período, conseguiu carregar um período histórico sobre suas
costas, deixando heranças musicais que ainda são modernas e utilizadas em nosso
tempo.


Sobre suas composições, suas músicas. É possível enxergar com outros olhos
a ideia de que longevidade e permanência não são possíveis. Estarmos falando em
Bach e sua música hoje, quase três séculos depois do final de sua passagem pela
história já é um indício de que ele continua atual.

Superado? Difícil dizer, a partir da ideia de que a música se renova, se
moderniza, mas continua sendo música, e o gosto musical está intimamente ligado à
atemporalidade de uma obra. E, mesmo que, quantitativamente, seja possível que se
escute, estude e mantenha Bach em evidência, ele continua fazendo parte da música
mundial.


Muito também pode-se dizer de João Gilberto. Como o texto faz questão de
pontuar, com qualidade, ambos os mestres são parecidos em sua insistência em,
mesmo com o mundo girando em altíssima velocidade ao seu redor, manterem-se
fiéis às suas raízes musicais.


João Gilberto faz a mesma música que fazia no início da sua carreira. Podemos
ter um vislumbre do que foi escrito a respeito de Bach com a vida e obra deste gênio
brasileiro. É a mesma música, a mesma forma de cantar, o mesmo estilo de violão, o
mesmo show, o mesmo tipo de composição, tudo sempre igual, e não por isto menos
genial.


Outros gênios brasileiros contemporâneos de Gilberto foram moldando-se à
cultura e às inovações que a passagem de tempo e a modernidade foram trazendo.
Incorporaram isto à sua música. Isto não os fez mais ou menos geniais. Apenas
diferentes em suas propostas. Suas músicas continuam a falar, independentemente
do estilo.


Assim como a fidelidade dos dois João à sua música também não os faz ser
menos do que aqueles que os rodeiam. Ao contrário. Faz com que ambos se
destaquem como quase únicos.


E, assim como no caso de Bach, creio que Celso não tenha se preocupado em
generalizar, colocando assim a Bossa Nova como extinta, tratada como documento
histórico, mesmo que um documento vivo, sob a batuta de João Gilberto.
Movimentos diversos mantém o estilo mais vivo do que nunca. Mesmo fora
daquilo que, hoje, convencionou-se chamar “hype”, a bossa nova continua a produzir
bons artistas. Mesmo com inovações, com influências, com renovações. Mas viva.
Não como Gilberto, porque ele tornou-se único. E assim será até o final de sua
carreira. E depois. Como foi Bach.

A questão toda não pode ser resumida ao “mudar ou não mudar”. Certamente
tanto um quanto outro artista acompanharam as mudanças à sua volta. Viram a
música tomar diversos rumos, talvez (ou certamente, como vimos na Missa de Bach)
tenham experimentado inovar. Mas preferiram manter as suas características.


Como diria o velho personagem televisivo, “é justo, é muito justo” que assim
tenham optado. Para nós, seres humanos normais, termos como objeto de admiração,
inspiração e estudo dois dos grandes musicistas da história, cada em seu tempo, cada
qual com sua história, dois espécimes únicos de uma grande verdade: A música é
atemporal. Mesmo dentro do tempo, será sempre atemporal.
Um viva aos dois João, aos muitos João que nos brindam com a mais bela arte!

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

CHAVES, C. L. Johann Sebastian e João Gilberto. IN: __. Memórias do Pierrô
Lunar e outras histórias musicais. Porto Alegre: L&PM, 2006.

rodrigocmagalhaes

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